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29 de jan. de 2009

E ela deve tudo a ele...

O pai era um sujeito interessante, um homem à moda antiga, e com a filha não era diferente. Quando ela fez quinze anos, começando o ensino médio, a pediu, em nome de uma dedicação total aos seus estudos e do respeito atribuído à uma moça de família, que só começasse a namorar quando terminasse a faculdade. Ela sabia que esse "namorar" era, no fim, sinônimo de sexo. Na cabeça dele ela ainda mantinha sua virgindade, nunca tinha beijado alguém e era responsável o suficiente para não querer fazê-lo. Em resumo, era virgem, séria e infeliz. "Como assim?", pensou... "Sexo (de novo) só daqui 10 anos, é isso?". Ainda pensou em perguntar o que ele realmente queria dizer com "namorar" (vai que ele a surpreendia), mas, de modo a não prolongar o assunto, resolveu por si mesma entender "namoro" como sendo um relacionamento sério, cujo moço (ou moça, afinal ela ainda não havia se decidido) seria apresentado formalmente à família em um daqueles jantares chatos e embaraçosos que sempre terminavam mal.

E assim o fez. Namorado a família só conheceu dois anos depois de sua formatura, antes disso ela se contentou com transas casuais, que em sua maioria duravam apenas uma noite (ou um dia, ou um filme, ou uma viagem de ônibus, ou alguns minutos na escada do prédio... enfim). Filha única, a queridinha dele, manteve sempre a sua imagem de boa moça. Em casa não falava palavrão, não bebia nada alcóolico, muito menos fumava cigarros (ou o que fosse). Aprendeu com sua mãe a cozinhar, estudou nas melhores escolas e era uma boa aluna, chegando a se destacar em algumas disciplinas (coincidentemente as que eram dadas por professores e não por professoras), como biologia e português. Boa de papo e conhecedora da anatomia humana, deu a entender ao pai que poderia ser uma boa médica (ainda bem, visto que poderia ter dado a entender no que ela realmente era boa). Inicialmente não gostou da idéia, mas de modo a convencê-la, o pai a mandou à algumas universidades. Vendo a qualidade dos futuros médicos, quer dizer, dos estabelecimentos, tomou gosto pela profissão e decidiu, então, que era isso que queria ser.

A medicina lhe tomou muito tempo, os futuros médicos também. Mas esperta como era, se formou com louvor e de quebra fez muitos amiguinhos. O pai acompanhava tudo de longe, orgulhoso da filha dedicada que ele criara. Feliz, hoje ela sabe que deve ao pai muito mais que a sua vida, deve a ele a medicina, os belos médicos (e demais profissionais) que conheceu e as transas mais inusitadas que teve, e por isso as melhores, em nome do anonimato.

É ou não é pra se amar um pai assim?


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