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4 de jan. de 2009

Noite

Acendeu um cigarro e pediu outra bebida. Há alguns anos, se alguém lhe dissesse que um dia estaria assim, sozinha em um bar, bebendo e ainda por cima fumando, ela o chamaria de louco sem nem pensar. Era boazinha demais, correta demais, preocupada demais, para fazer algo do gênero... Pois lá estava ela, bem vestida, com uma blusa branca, generosamente decotada, deixando ombros e colo totalmente à mostra, uma saia justa não muito curta e nos pés um belo par de sandálias, os longos cabelos, negros e lisos, cobriam parte de seu rosto maquiado. As unhas vermelhas quase não contrastavam com o tinto do vinho que lhe fazia companhia desde que ali chegou. Sentada frente ao balcão, via, sem ver, o vai e vem das pessoas, era como se não houvesse mais ninguém ali. Nem mesmo a música valia-lhe a pena escutar... "Preciso da Amy...", pensou ela, esboçando um sorriso. Vinho tinto, Amy Winehouse e cigarros... era assim que ela definia uma noite perfeita. Pena não ter a Amy, mas se virou bem com o vinho e os cigarros.

Enquanto fumava, suspirava, como se o liberar de cada trago lhe valesse de uma confissão. Tinha tanto a dizer, tantos sentimentos contidos que suplicavam para sair. Mas ela preferia guardá-los para si, talvez por medo, ou talvez por falta de quem os, sinceramente, ouvisse. Em sua mente refez seu caminho até chegar ali... não o trajeto que a levara até aquele lugar, mas o caminho que percorreu em sua vida. Tentou lembrar-se de cada detalhe, de cada palavra ou ação, das possíveis causas que a levaram a se tornam quem é hoje. Lembrou-se de muita coisa, reencontrou alguns fantasmas e reviveu cada emoção, boa e ruim. "Oito anos...", pensou. Há oito anos começava a ver que o mundo não é cor-de-rosa, começava a ver o que as pessoas são capazes de fazer ou não fazer, há oito anos perdia uma parte de si que nunca mais irá recuperar. Por um momento sentiu pena de si mesma, perguntou intimamente "por que?", sentiu as lágrimas ameaçarem. Mas, instantaneamente, pensou na promessa que se fizera, de que nunca mais ia se lamentar pelo que passou. Ela sabia que não tinha sido fácil, mas sabia também que poderia ter sido bem pior, e que, pra muitas outras pessoas, o é.

Cansada das lembranças, resolveu se deixar envolver, enfim, por aquele lugar. Haviam ali muitas outras pessoas, belas, sorrindo, conversando, como se as suas vidas se resumisse à aquele momento. E vai ver, resumia-se mesmo. Não é isso que dizem? Que a vida é feita de momentos? Para elas parecia que nada mais importava, a não ser o estar ali. E por que não fazer o mesmo? Por que não se deixar levar pela superficialidade por algumas horas? Por que não ser tomada por uma futilidade egocêntrica? E assim o fez, libertou-se de todo o resto e se permitiu ser o que era, uma bela mulher, sozinha em um elegante lugar, apreciando um bom vinho e aliviando a tensão em alguns cigarros. E descobriu que poderia se divertir observando às pessoas, e que algumas delas poderiam lhe proporcionar uma agradável conversa.

Ao final da noite, voltou a ser o que se tornou com o tempo, e tudo acabou como sempre acaba. Linda, alheia, e agora, acompanhada, ao menos, por uma noite.

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