Desde que se entende por gente ela ouve que é uma pessoa complicada (pra resumir o que ela ouve, claro). Quando bebê passava noites inteiras chorando pelo colo de sua mãe. Aos dois anos brigava com seu irmão mais velho e o fazia chorar por puro prazer de vê-lo. Enlouquecia a família, as babás, os vizinhos, o dono do supermercado da esquina, os cães, os gatos... ah, os gatos... o último que se aventurou pelos lados do quintal teve seu rabo queimado pouco depois de quase morrer sufocado embaixo de alguns tapetes. Na escola, já com cinco anos, não se interessava por coisas de menininhas, achava tudo muito chato e cor de rosa (se ao menos fosse vermelho...), queria mesmo era ficar com os meninos (precoce), ficar perto deles, brincar com eles e participar de tudo (quase tudo) que eles faziam. Tanta paixão pelo sexo oposto começou a preocupar seu pai, afinal, ele queria uma mocinha, que brincasse de boneca, imitasse a mãe, fosse meiga e o enchesse de carinhos. Muitas vezes conversou com ela, em algumas delas chegou a elevar o tom de sua voz, o que a aborreceu profundamente (gênio difícil) e fez com que ela, em muitas dessas ocasiões, tentasse fugir de casa. As fugas sempre terminavam na segunda esquina, quando o pai, ofegante, finalmente a alcançava e carinhosamente (com um galho da jaboticabeira) a levava pra casa.
Aos sete anos conheceu sua primeira psicóloga, uma boa mulher, bastante paciente. Fazia muitas perguntas mas ela sempre se reservava ao direito de ficar calada. Um belo dia, depois de um comentário que a aborreceu, chamou a psicóloga de vadia e nunca mais teve que vê-la. Depois dela vieram outras (e outros), mas depois que aprendeu como se livrar deles nenhum durou mais que duas conversas. Aos nove anos jogou ovos na casa da vizinha e foi correndo contar para sua mãe que tinha visto o filho dela (da vizinha) fazer o serviço. Com aquela cara de santa (que teve até os 14 anos, quando perdeu a santidade não só da cara), sua mãe não só acreditou nela como contou tudo para a vizinha. Naquele dia se divertiu sentada em cima do pé de abacate, assitistindo a surra que o pobre menino levou da mãe. Em seu aniversário de 11 anos deu seu primeiro beijo (em uma menina, porque em um menino foi aos 7 anos). Achou tudo aquilo muito divertido mas entendeu que seu negócio eram os menininhos mesmo. Aos 13 anos já namorava e pensava no que haveria depois dos beijos. Aos 14 anos descobriu o que havia depois dos beijos. Alguns anos depois namorou o pai de sua (agora) melhor amiga, e com ele aprendeu as melhores coisas que alguém podia ensinar à ela (os outros que o digam).
Hoje em dia (diz que) faz faculdade. Mora sozinha e curte baladinhas ao lado das colegas. A vontade de ficar com os meninos continua a mesma, muito embora ainda goste de fazê-los chorar, como fazia com seu irmão e com os vizinhos. Se é complicada ou não ela não sabe, mas que é uma safada sem limites, isso ela ter certeza.
Assinar:
Postar comentários (Atom)


Nenhum comentário:
Postar um comentário